 O gosto do ciúme
Para muitos, o sentimento é sinônimo de amor e cuidado, mas basta errar um pouco na dose para ele fazer desandar a receita de um relacionamento saudável por Patrícia Affonso / Shutterstock
 |
O ciúme exagerado faz uma relação se tornar frágil tal qual a casca do ovo
|
Ele é como um inquilino que mora dentro do peito. Discreto no começo, não sinaliza problema e até é encarado com certa graça. Mas basta um olhar desviado ou uma frase mal interpretada para o sentimento, antes pequeno, tomar grandes proporções e criar uma confusão daquelas. Estamos falando do ciúme.
Por causa dele, nos sentimos traídos e incompreendidos, falamos mais do que devíamos. O resultado de tudo isso é um baque capaz de abalar até mesmo os relacionamentos mais sólidos.
O intrigante é que, mesmo sabendo disso, estamos sujeitos a vivenciá-lo repetidas vezes. "Essa é uma emoção normal, muito presente na vida do ser humano", explica o psiquiatra Eduardo Ferreira Santos, autor do livro Ciúme - o lado amargo do amor (Editora Ágora). Ter ciúme é tão natural quanto uma dor: todo mundo sente vez ou outra e toma as medidas necessárias para que passe.
O problema é quando essa dor começa a ser uma companhia constante. São tantos os sentimentos que vêm à tona e ajudam na explosão de uma crise de ciúme que fica difícil defini-lo. No entanto, é essencial ressaltar que, em qualquer circunstância, essa emoção caminha de mãos dadas com a insegurança.
"O ciúme surge do receio que alguém possa tomar nosso lugar, nos colocando em uma situação de desprezo ou esquecimento", analisa Miguel Perosa, professor do departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A sensação é de ameaça. E você sabe, em momentos assim, todos os nossos instintos entram em cena e podem fugir do controle.
Isso explica as inúmeras manchetes de jornal com finais tristes, vividas por pessoas ciumentas. Mas há quem prefira analisar os fatos por uma óptica mais branda. Para muita gente, o ciúme é como uma espécie de termômetro do amor e, assim sendo, sua ausência é encarada como descaso.
"É uma visão mais romântica que só funciona quando se trata de uma dose moderada, que não ultrapasse os limites da individualidade", completa Perosa. Baseado nessa versão surgiu o ditado popular "Quem ama cuida" - frase que vive na ponta da língua dos ciumentos e é utilizada como álibi para justificar suas atitudes possessivas. Acontece que, embora sejam constantemente colocados no mesmo patamar, zelo e ciúme são sentimentos bastante diferentes.
"O primeiro é altruísta, pois se sustenta no cuidado e preocupação com o outro. O segundo tem um fundo egoísta, já que vem do medo de perdermos o valor que temos para alguém", comenta Santos.
Por isso, melhor do que buscar alguma desculpa é seguir o conselho dos especialistas: atentar à medida e cuidar do problema, logo no início, impedindo que ele se torne maior.
"As pessoas gostam de sentir que o outro se importa com o relacionamento, mas tudo tem limite", pondera a psicoterapeuta Mara Pusch, consultora de comportamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Desconfiar do parceiro e testá-lo em qualquer oportunidade, portanto, são sinais de desequilíbrio, o que pode envenenar e destruir a relação.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |